Estamos perto do topo?
Produzido dia 9 de janeiro de 2025
Escrito por Caio Leta
O mercado do Bitcoin sempre foi marcado por sua natureza volátil e cíclica, onde momentos de euforia e pessimismo se alternam com uma intensidade que poucos outros mercados experimentam. Neste ano o Bitcoin tem apresentado uma performance extraordinária, quebrando recordes históricos e atraindo a atenção não apenas dos entusiastas do mercado cripto, mas também de investidores institucionais e do público em geral.
Com a vitória do Donald Trump na eleição americana e a perspectiva que essa próxima administração será favorável ao ecossistema do Bitcoin e o transformará em ativo de reserva estratégica, o preço do Bitcoin se valorizou fortemente nas últimas semanas e saltou de US$ 65.000,00 para US$ 93.000,00. Essa alta recente levanta a questão: será que já atingimos o ápice deste ciclo de alta?
Esta pergunta não é apenas relevante para traders e especuladores de curto prazo, mas também para investidores de longo prazo, empresas que estão considerando adicionar Bitcoin ao seu balanço patrimonial e para o ecossistema cripto como um todo. A resposta pode impactar significativamente as estratégias de investimento no curto e médio prazo.
Nesta análise, vamos examinar os principais indicadores on-chain, dados fundamentais e fatores macroeconômicos que podem nos ajudar a entender melhor o momento atual do Bitcoin e suas perspectivas futuras. Além disso, vamos comparar o ciclo atual com os anteriores, buscando padrões e divergências que possam nos dar pistas sobre o que esperar nos próximos meses. É importante ressaltar que nenhum indicador é infalível e deve ser observado no vácuo. O correto é usar uma abordagem multi-modelos e julgar diversos indicadores e o contexto macro como um todo para tentar compreender as tendências futuras do mercado.
Vale ressaltar também que topos são fáceis de se identificar em retrospectiva e o nome disso é viés do historiador também conhecido como viés retrospectivo. Este fenômeno cognitivo ilustra perfeitamente como nossa mente reconstrói eventos passados de uma maneira que faz parecer que eles eram muito mais previsíveis do que realmente eram quando estavam acontecendo em tempo real.
Outro adendo que é importante fazer é que historicamente o Bitcoin apresenta quedas superiores a 30% mesmo em mercados de alta. Em outras palavras, mesmo se não estivermos perto do topo, isso não significa que o preço subirá em linha reta e que quedas consideráveis não ocorrerão.
Medo e Ganância
O Índice de Medo e Ganância (Fear and Greed Index) é um indicador que busca medir o sentimento geral do mercado de Bitcoin através de múltiplos fatores, incluindo volatilidade, volume de negociação, dominância do Bitcoin, tendências nas redes sociais e pesquisas de mercado. O indicador apresenta uma escala de 0 a 100, onde valores próximos a 0 indicam “Medo Extremo” e valores próximos a 100 representam “Ganância Extrema”.
Historicamente, períodos de medo extremo (abaixo de 20) têm se mostrado oportunidades interessantes de compra, enquanto períodos de ganância extrema (acima de 80) frequentemente precedem correções significativas no preço. No entanto, é importante notar que o indicador é mais útil como uma ferramenta de análise contrária - ou seja, quando o mercado está extremamente temeroso, pode ser hora de ser ganancioso, e quando o mercado está extremamente ganancioso, pode ser prudente exercer cautela.
Entretanto, durante os mercados de alta do Bitcoin, o Índice de Medo e Ganância pode permanecer em níveis elevados (acima de 70) por períodos prolongados de vários meses até que o topo final seja atingido. No ciclo atual de 2024, o indicador apenas recentemente começou a registrar níveis consistentes de “ganância”, sugerindo que ainda estamos em estágios relativamente iniciais deste ciclo de alta - uma observação particularmente relevante quando comparamos com ciclos anteriores onde o sentimento de ganância extrema persiste por períodos muito mais longos antes dos topos finais. Esta análise histórica sugere que ainda pode haver um caminho considerável a ser percorrido neste ciclo de alta antes que vejamos sinais mais conclusivos de exaustão do mercado.
Índice de Força Relativa
O gráfico do Índice de Força Relativa (Relative Strength Index ou RSI) é uma visualização baseada em momentum para o mercado Bitcoin. Usamos o RSI para medir tanto a velocidade quanto a magnitude dos movimentos direcionais de preço do Bitcoin. Dependendo da rapidez com que um preço muda e de quanto muda, uma pontuação RSI é atribuída ao mês sendo observado em relação aos 12 meses anteriores.
- Um RSI alto significa que os movimentos de preço são muito positivos em relação aos 12 meses anteriores.
- Um RSI baixo significa que os movimentos de preço são muito negativos em relação aos 12 meses anteriores.
Essencialmente, o RSI, quando graficamente representado, fornece um meio visual para monitorar tanto a força atual quanto histórica, assim como a fraqueza de um mercado específico. A força ou fraqueza é baseada nos preços de fechamento ao longo da duração de um período de negociação especificado, criando uma métrica confiável de mudanças de preço e momentum.
Historicamente, o RSI demonstrou momentos significativos nos ciclos do Bitcoin. No mercado de alta de 2017, o RSI atingiu níveis extremamente elevados (acima de 95) durante o topo próximo a $20.000, seguido por uma reversão dramática quando rompeu abaixo de 70. Já no ciclo de 2021, o comportamento foi mais complexo, com múltiplos picos acima de 90 - notadamente durante a subida até $64.000 em abril e novamente no topo final próximo a $69.000 em novembro - embora as divergências bearish tenham sido menos óbvias que no ciclo anterior. O ciclo atual (2023-2024) tem mostrado um comportamento mais moderado do RSI, raramente ultrapassando 85 no timeframe diário, o que alguns analistas atribuem à maior maturidade do mercado e à crescente participação institucional, que tende a reduzir movimentos extremos do indicador. No timeframe mensal, o RSI atual ainda não ultrapassou o valor de 75, o que indica que ainda temos bastante espaço para crescimento nesse atual mercado de alta.
Verde, verde, verde, vermelho
Grande parte do ecossistema acredita que o Bitcoin se valoriza em ciclos de quatro anos que estão relacionados ao halving e aos ciclos de expansão da liquidez global. Um meme que traduziu e simplificou esse conceito de ciclos para a linguagem memética é o “verde, verde, verde, vermelho”, que basicamente quer dizer que os ciclos do Bitcoin são marcados por 3 anos de valorização seguidos de 1 ano de quedas acentuadas.
Seguindo este racional simplista, ainda estamos no final do segundo ano verde, o que significa que ainda deveríamos ter mais um ano de valorização e possivelmente atingiríamos um topo em algum momento do ano que vem.
MVRV
O MVRV (Market Value to Realized Value Ratio) é um indicador que compara o valor de mercado atual do Bitcoin com seu valor realizado. O valor de mercado é simplesmente o preço atual multiplicado pelo número de moedas de Bitcoin em circulação, enquanto o valor realizado é calculado somando os preços em que cada moeda foi movimentada pela última vez. Em outras palavras, o valor realizado representa uma espécie de “preço médio de compra” de todos os holders de Bitcoin, fornecendo uma base para entender se o mercado atual está acima ou abaixo do custo médio de aquisição dos investidores.
Historicamente, o MVRV tem sido uma ferramenta valiosa para identificar topos de mercado no Bitcoin. Quando o MVRV ultrapassa 4, isso tradicionalmente indica que o mercado está significativamente sobrevalorizado, sinalizando um potencial topo local ou global. Nos topos dos mercados de alta, o valor do MVRV sempre estava acima de 6. Isso acontece porque, neste ponto, o valor de mercado está muito acima do preço médio de compra dos holders, criando uma situação onde muitos investidores estão sentados sobre lucros substanciais não realizados. Esta condição frequentemente leva a uma maior pressão de venda, pois os holders têm maior propensão a realizar lucros, potencialmente desencadeando uma reversão do mercado. Vale notar que, com a maturação do mercado de Bitcoin, os picos históricos do MVRV têm diminuído ao longo dos ciclos, sugerindo que níveis extremos podem ser menos pronunciados em ciclos futuros.
Atualmente o valor do MVRV se encontra abaixo de 3, o que indica que o mercado de alta ainda continuará ocorrendo pelo menos no futuro próximo e que não estamos perto do topo deste ciclo de alta.
Hodlers de longo prazo
O comportamento dos hodlers de longo prazo é considerado um excelente indicador para análise de mercado porque estes investidores tipicamente representam os participantes mais experientes e bem-informados do ecossistema Bitcoin. Através de múltiplos ciclos de mercado, eles desenvolveram uma compreensão profunda da volatilidade e dos padrões cíclicos do Bitcoin, tendo sobrevivido a diversos períodos de alta e baixa. Como resultado, quando este grupo começa a mostrar sinais consistentes de realização de lucros, isso frequentemente indica que os participantes mais experientes do mercado estão identificando sinais de sobrevalorização ou exuberância excessiva.
Além disso, os hodlers de longo prazo geralmente controlam uma porção significativa do supply circulante do Bitcoin, tendo acumulado suas posições durante períodos de baixa quando os preços estavam deprimidos. Quando este grupo começa a mover suas moedas em massa, especialmente após longos períodos de dormência, isso representa uma mudança significativa na dinâmica de oferta e demanda do mercado. O movimento dessas “mãos fortes” para realização de lucros pode criar uma pressão de venda substancial, principalmente porque suas moedas frequentemente representam grandes volumes com custos de aquisição muito baixos.
Por fim, a psicologia por trás do comportamento dos hodlers também é relevante: estes investidores tendem a ser menos emocionais em suas decisões e geralmente vendem apenas quando acreditam que o mercado está significativamente sobrevalorizado. Diferentemente dos traders de curto prazo ou novos investidores que podem ser facilmente influenciados por FOMO (Fear of Missing Out) ou FUD (Fear, Uncertainty and Doubt), os hodlers de longo prazo baseiam suas decisões em experiência acumulada e análise fundamentalista. Portanto, quando vemos um aumento significativo na atividade deste grupo, especialmente em termos de realização de lucros, isso frequentemente sinaliza que os participantes mais racionais e experientes do mercado estão identificando condições de sobrevalorização.
Os dados dos hodlers de longo prazo foram poluídos recentemente devido a aprovação dos ETFs de Bitcoin e ao fato de que as taxas mais elevadas do GBTC (um dos ETFs e o maior ETF no início do ano) fez com que diversos investidores de longo prazo vendessem suas cotas do GBTC e realocassem esse capital em outros ETFs. Então devemos ignorar a queda de hodlers de longo prazo no início de 2024 para analisar os dados desse indicador.
Os dados mostram que o processo de venda pelos hodlers de longo prazo começou recentemente, o que indica que ainda estamos no começo do mercado de alta.
Múltiplo de Mayer
O Múltiplo de Mayer é um indicador calculado dividindo o preço atual do Bitcoin pela sua média móvel de 200 dias. Um Múltiplo de Mayer acima de 1 indica que o Bitcoin está atualmente precificado acima de sua média de 200 dias, sugerindo um potencial mercado de alta. Por outro lado, um Múltiplo de Mayer abaixo de 1 pode sugerir um mercado de baixa ou uma boa oportunidade de compra.
Nos topos dos dois últimos ciclos de alta o múltiplo de Mayer estava em 4 e 2,7 respectivamente, enquanto que atualmente o valor do múltiplo de Mayer está em 1,4. Esse valor indica que provavelmente o mercado de alta ainda terá continuidade e que não estamos em um topo.
Repetição de ciclo
A história não se repete, mas será que ela pode ser usada de parâmetro para embasar alguma análise? A Bitbo possui uma análise interessante que é a repetição do ciclo anterior no atual. A ideia é simples, mas permite visualizar a ordem de grandeza que o preço do Bitcoin poderia chegar caso o ciclo de alta atual repita o padrão do ciclo de alta anterior.
A análise da repetição de ciclos fornecida pela Bitbo indicaria que o preço do Bitcoin pode chegar até os US$ 300.000,00 no topo do ciclo atual.
Gráfico do arco-íris
O gráfico de preço arco-íris é uma ferramenta de avaliação de longo prazo para o Bitcoin que usa uma curva de crescimento logarítmico para prever a potencial direção futura do preço. O pensamento é que a adoção do Bitcoin está seguindo essa curva de crescimento logarítmico e que este padrão seguirá ocorrendo. Uma de suas características principais é a sobreposição de faixas de cores do arco-íris em cima do canal da curva de crescimento logarítmico, destacando o sentimento do mercado em cada estágio de cor conforme o preço do Bitcoin se move através dele. Dessa forma, o gráfico indica potenciais oportunidades para o investidor de Bitcoin.
Embora seja um cálculo matematicamente correto de uma curva de crescimento logarítmica e capture com precisão os movimentos históricos de preço de longo prazo dentro de um canal formado ao redor da curva, isso não significa necessariamente que o preço do Bitcoin precise continuar seguindo esse mesmo canal no futuro. Mesmo assim, muitos investidores e analistas continuam monitorando este gráfico para observar se o padrão se mantém ao longo do tempo, especialmente conforme o preço do Bitcoin se move para novos ciclos de mercado.
De acordo com o gráfico do arco-íris, nós estaríamos no início do mercado de alta e ainda não estaríamos próximos do topo deste ciclo.
Superciclo?
Durante os ciclos de alta do Bitcoin, é notável como certas narrativas começam a ganhar força à medida que o preço atinge novos recordes históricos. A frase “dessa vez é diferente” se torna particularmente popular, frequentemente acompanhada por argumentações sobre como novos fatores fundamentais (como a aprovação dos ETFs, adoção institucional, ou reconhecimento regulatório) justificariam uma mudança permanente no comportamento cíclico do Bitcoin. Esta narrativa é especialmente sedutora porque geralmente se baseia em desenvolvimentos reais e positivos do mercado, mas ignora que, historicamente, mesmo mudanças fundamentais significativas não foram suficientes para quebrar completamente os padrões cíclicos do ativo.
A teoria do “superciclo” - a ideia de que o Bitcoin entrou em uma fase onde não veremos mais quedas significativas ou mercados de baixa prolongados - tende a emergir precisamente nos momentos de maior euforia do mercado. É interessante observar como estas narrativas raramente aparecem durante períodos de preços deprimidos ou mercados laterais, surgindo apenas quando o otimismo está em níveis extremos e os investidores estão experimentando lucros substanciais. Este padrão psicológico, onde o extremo otimismo leva à crença de que “as regras mudaram”, tem sido historicamente um dos sinais mais confiáveis de topos de mercado, não apenas no Bitcoin, mas em praticamente todas as classes de ativos ao longo da história dos mercados financeiros.
Aqui eu faço o disclaimer que eu acredito que podemos sim estar no início de um superciclo causado pela adoção do Bitcoin como ativo de reserva estratégica por diversas instituições e até mesmo estados-nação. Mas eu não realizo nenhum trade levando isso em consideração, não uso alavancagem e sigo a minha estratégia de alocação mensal independente do preço (estratégia conhecida como DCA, que foi abordada neste Bipa Cast), então se não ocorrer um superciclo eu não estou exposto ao risco da ruína.
Ainda existem poucas pessoas com narrativas extremamente bullish como essa do “superciclo”, indicando que, caso não estejamos em um superciclo, mesmo assim ainda devemos estar longe do topo visto que a narrativa ainda não apresenta tanta euforia.
Curva de juros do FED
A tendência de queda nas taxas de juros pelo Federal Reserve (FED) tende a criar um ambiente macroeconômico particularmente favorável para ativos de risco como o Bitcoin. À medida que o banco central americano sinaliza uma política monetária mais flexível, com 2 cortes efetuados em 2024 e mais projeções de múltiplos cortes em 2025, isso historicamente resulta em maior liquidez no sistema financeiro e um aumento no apetite por risco dos investidores. Para o Bitcoin, que se beneficia tanto do fluxo de capital em busca de rendimento quanto da narrativa de proteção contra a desvalorização monetária, este cenário tende a ser extremamente bullish, pois incentiva tanto investidores institucionais quanto de varejo a aumentarem sua exposição a ativos alternativos.
Além disso, os ciclos anteriores de alta do Bitcoin mostram que o ativo tende a performar melhor durante períodos de política monetária acomodatícia, com movimentos mais expressivos ocorrendo justamente quando há abundância de liquidez no mercado. Com o FED sinalizando uma mudança significativa em sua postura após um longo período de aperto monetário, é razoável esperar que este ciclo de alta tenha ainda bastante espaço para se desenvolver, especialmente considerando que historicamente os rallies mais significativos do Bitcoin ocorreram nos meses seguintes ao início dos ciclos de corte de juros. A combinação deste ambiente macro favorável com os recentes catalisadores específicos do mercado cripto, como a aprovação dos ETFs à vista, sugere que estamos mais próximos do meio do que do fim deste ciclo de alta.
Estado do Mercado Cripto
Os ciclos anteriores do Bitcoin demonstraram que, à medida que nos aproximamos dos topos de mercado, ocorre uma deterioração progressiva da dominância do Bitcoin (porcentagem que o Bitcoin representa do valor total do mercado cripto) em favor das altcoins. Este fenômeno geralmente coincide com um período de euforia irracional, onde investidores, embriagados pelos ganhos recentes, começam a procurar retornos cada vez maiores em projetos mais arriscados. A queda acelerada na dominância do Bitcoin, especialmente quando acompanhada por valorizações explosivas de altcoins sem fundamentos sólidos ou utilidade clara, historicamente sinalizou as fases finais dos bull markets. Nestes momentos, é comum ver projetos relativamente novos ou desconhecidos apresentando valorizações de milhares de porcentagem em curtos períodos, muitas vezes baseados apenas em marketing agressivo e promessas grandiosas.
O surgimento em massa de novos projetos sem muito sentido (como venda de terrenos no metaverso) e ICOs (Initial Coin Offerings), combinado com um crescimento exponencial do market cap total do mercado cripto, também são sinais clássicos de um mercado próximo ao topo. Este padrão reflete um momento onde o FOMO (Fear of Missing Out) atinge seu ápice e investidores inexperientes entram no mercado em busca do “próximo Bitcoin”, frequentemente ignorando riscos fundamentais em sua busca por retornos rápidos. O crescimento explosivo do valor total do mercado, especialmente quando impulsionado mais por projetos especulativos do que por desenvolvimento real do ecossistema, tende a criar uma bolha insustentável que historicamente precede correções significativas. É particularmente notável como estes indicadores tendem a se manifestar simultaneamente nas fases finais dos ciclos de alta, criando um ambiente de especulação extrema que geralmente marca o início do fim do mercado de alta.
Qualquer pessoa que esteve presente nos últimos mercados de alta sabe que o estágio da euforia ainda não começou, o que indica que ainda estamos longe do topo deste mercado de alta.
Zona da euforia
Uma análise que eu vi pela primeira vez ao realizar a pesquisa para esse texto e achei interessante foi a análise de zona de euforia do James Check, também conhecido como Check Mate, analista responsável pelo site de análise onchain checkonchain.com. Essa análise utiliza o MVRV como base e extrapola que momentos em que o MVRV está elevado e cruza determinados níveis (1 e 2 desvios padrões) são momentos de euforia e euforia extrema. Historicamente, os ciclos de alta ficam um grande intervalo de tempo na zona de euforia antes que o topo do mercado seja atingido. Atualmente, estamos a uma ou duas semanas com sentido de euforia e o MVRV mal cruzou o 1o desvio padrão.
Composição de indicadores
O James Check também apresenta uma análise que combina o MVRV, o múltiplo de Puell, o SOPR e o Reverse Risk para estimar em qual fase do ciclo estamos.
O MVRV já foi explicado acima, então não repetir a explicação aqui.
Múltiplo de Puell é uma métrica on-chain que avalia a rentabilidade da mineração de Bitcoin comparando a receita diária dos mineradores em dólares com sua média móvel de 365 dias, fornecendo insights valiosos sobre ciclos de mercado e potenciais pontos de virada. Quando o múltiplo está muito alto (acima de 4), indica que os mineradores estão obtendo receitas significativamente acima da média histórica, sugerindo um possível topo de mercado já que eles tendem a vender mais bitcoins nessas condições; quando está muito baixo (abaixo de 0,5), indica que a receita dos mineradores está bem abaixo da média histórica, frequentemente sinalizando um fundo de mercado pois apenas os mineradores mais eficientes conseguem manter suas operações. Historicamente, esta métrica tem sido notavelmente precisa em identificar tanto oportunidades de compra durante períodos de estresse extremo na mineração quanto momentos para cautela durante períodos de alta rentabilidade, tornando-se uma ferramenta importante para análise de ciclos de mercado, especialmente quando combinada com outros indicadores on-chain e considerando eventos como o halving, que impacta diretamente a receita dos mineradores.
SOPR (Spent Output Profit Ratio) é uma métrica fundamental para análise on-chain do Bitcoin que mede a lucratividade média das transações, calculando a razão entre o preço em que os bitcoins são vendidos e o preço em que foram originalmente adquiridos. Quando o SOPR está acima de 1, indica que os holders estão, em média, vendendo em lucro, enquanto valores abaixo de 1 sugerem vendas em prejuízo. Durante mercados de alta, o SOPR tende a se manter acima de 1, com quedas até este nível frequentemente funcionando como suporte, enquanto em mercados de baixa, valores abaixo de 1 são comuns, com subidas até 1 atuando como resistência. A métrica pode ser ainda mais reveladora quando segmentada por idade das moedas, tamanho das carteiras ou tipo de entidade (mineradores, exchanges, etc.), permitindo análises mais granulares do comportamento do mercado. Embora seja um indicador retroativo, o SOPR é uma ferramenta valiosa para identificar pontos de suporte e resistência, avaliar o sentimento do mercado e detectar possíveis reversões de tendência, especialmente quando usado em conjunto com outros indicadores on-chain.
Reserve Risk (Risco de Reserva) é um indicador cíclico que avalia o equilíbrio risco-recompensa em relação à confiança e convicção dos holders de longo prazo do Bitcoin. Ele funciona como um oscilador que compara o preço atual (incentivo para vender) com a convicção dos investidores de longo prazo (custo de oportunidade de não vender), medindo a acumulação de “coin-days” - dias em que as moedas permanecem sem movimentação. Quando o Risco de Reserva está baixo, indica que a convicção dos holders é alta e o preço está baixo, sugerindo uma boa oportunidade de investimento; quando está alto, sinaliza que a convicção dos holders está diminuindo e o preço está elevado, potencialmente indicando sobrevalorização. Historicamente, períodos de Risco de Reserva baixo tendem a ser longos e correspondem ao final de mercados de baixa até o início de mercados de alta, enquanto períodos de Risco de Reserva alto são geralmente mais curtos e ocorrem no meio ao fim de mercados de alta, revertendo rapidamente após picos expressivos.
De acordo com a análise destes quatro indicadores em conjunto, não estamos próximos ao topo e o mercado de alta ainda deve prosseguir por algum tempo, visto que os indicadores estão apenas começando a disparar sinais de pico.
Conclusão
Os diversos indicadores on-chain e de mercado sugerem que o ciclo de alta atual do Bitcoin ainda está longe de seu topo. A entrada institucional via ETFs está apenas começando. A dinâmica de oferta e demanda é particularmente favorável, com o halving recente reduzindo a oferta de novos bitcoins pela metade, enquanto a demanda institucional continua acelerando, evidenciada pelas compras constantes da MicroStrategy e a adoção crescente por empresas públicas como tesouraria.
Os indicadores comportamentais também sugerem que estamos longe de um pico de euforia típico de topos de ciclo. O interesse de varejo, medido por métricas como buscas no Google, download de aplicativos de corretoras nas lojas de aplicativos e atividade em redes sociais, ainda está significativamente abaixo dos níveis vistos em 2021. Além disso, a mudança no cenário político americano, com uma administração mais favorável ao Bitcoin e demais criptomoedas, combinada com a resolução das principais incertezas regulatórias através da aprovação dos ETFs remove importantes obstáculos que anteriormente limitavam a adoção institucional. As métricas de acumulação por holders de longo prazo permanecem saudáveis, sem sinais significativos de realização de lucros, sugerindo que os participantes mais educados do mercado ainda antecipam valorização adicional.